Este sinal facilmente visto em shows de Rock é uma das marcas registradas dos apreciadores desse estilo de música. É bem comum observar várias pessoas reunidas apontando o gesto em direção a banda que se apresenta, e neste meio é conhecido por diversos nomes, tais como: Sinal do demônio, mão de chifres, sinal do bode, sinal do metal, mão de metal, dedos do mal, punho do mal,(hehehe) e vários outros.
Este sinal é na verdade muito mais antigo do que o próprio Rock ´N Roll e apesar da grande maioria dos roqueiros utilizarem este sinal, poucos de fato sabem quais são suas origens.
Este sinal faz parte de um conjunto de gestos simbólicos feitos com os braços e principalmente com as mãos, conhecidos como Mudras. São utilizados em saldações,invocações, rituais, meditações, danças e até mesmo nas artes marciais. Um mudra muito conhecido na nossa cultura é aquele das duas mãos unidas que sua mãe te ensinou quando você era pequeno e aprendeu que se não rezasse não iria pro céu.
O uso mais antigo que se tem registro do nosso sinal do demônio vem da Kundalini Yoga, muito antes de termos o conceito do Belzebu como temos nos dias de hoje.
Na Kundalini Yoga este sinal é conhecido como Apana e consiste em unir as pontas dos dedos médio, anelar e dedão ao passo em que se mantêm os dedos mínimo e indicador levantados.
Segundo a tradição dos Yogues este Mudra serve dentre outras coisas, para a purificação das energias do corpo, basta você sentar-se numa posição confortável, manter as mãos nesta posição e relaxar por alguns minutos. Dizem também que este processo alivia as cólicas durante a menstruação, neste ultimo caso, por motivos óbvios nunca tentei. Na tradição Budista ele se chama Tarjani-Mudra.
No Egito, este mesmo símbolo era utilizado como a representação da cabeça do deus Anúbis, o deus dos mortos, era usado como sinal de proteção contra maus espíritos. O Mudra era feito antes das viagens, como despedida desejando proteção, assim como sinal de benção para os membros das fraternidades esotéricas. Posteriormente através dessas mesmas fraternidades o sinal foi levado a Grécia onde passou a ser utilizado nos cultos Herméticos e Dionisíacos, logo foi associado aos chifres de Dionísio, Baco e Cernunnos. O símbolo representava basicamente sabedoria, boa sorte, benção, prosperidade e era usado como amuleto assim como a famosa Figa que muita gente utiliza até hoje.

Era conhecido também como Símbolo da Coruja de Atenas, que representa uma coruja nas mãos da deusa observando e cuidando da floresta. Quando um membro mais velho de uma ordem fazia este sinal para um mais novo, significava mais ou menos isso: “fica sussa que nós te ensinaremos e tomaremos conta de você”. Na figura do arcano maior O Hierofante do taro mitológico, vemos Quíron o mestre de vários heróis (como Hércules por ex) na porta de sua caverna, com seus ensinamentos, representados pelos pergaminhos em uma das mãos, recebendo um discípulo com o sinal da coruja.

Este Mudra chegou em Roma, muitos séculos antes do surgimento do cristianismo, era muito comum, tão comum quanto dar tchau hoje em dia. Mas a partir do século VI depois de Cristo este sinal começou a ser distorcido de acordo com os interesses da igreja católica, na medida em que ela buscava dominar as outras culturas e aniquilar outras religiões. Um dos grandes responsáveis por isso foi um tal de Constantino que eu ainda falarei muito aqui no blog.
Mas como isso foi parar no meio do Rock?
Já estamos chegando lá, antes preciso falar sobre Helen Keller que foi uma escritora, conferencista e ativista social, nascida no Alabama. Helen foi um dos grandes exemplos de superação do nosso século. Na infância perdeu a visão e a audição(hoje acredita-se que foi devido a uma doença chamada Escarlatina) mesmo assim vejam só o que ela fez:
Em 1904 graduou-se bacharel em filosofia pelo Radcliffe College, instituição que a agraciou com o prêmio Destaque a Aluno, no aniversário de cinquenta anos de sua formatura. Falava os idiomas francês, latim e alemão. Ao longo da vida foi agraciada com títulos e diplomas honorários de diversas instituições, como a universidade de Harvard e universidades da Escócia, Alemanha, Índia e África do Sul. Em 1952 foi nomeada Cavaleiro da Legião de Honra da França. Foi condecorada com a Ordem do Cruzeiro do Sul, no Brasil, com a do Tesouro Sagrado, no Japão, dentre outras. Foi membro honorário de várias sociedades científicas e organizações filantrópicas nos cinco continentes.
Em 1902 estreou na literatura publicando sua autobiografia A História da Minha Vida. Depois iniciou a carreira no jornalismo, escrevendo artigos no Ladies Home Journal. A partir de então não parou de escrever.
Agora voltando ao foco do texto...
Helen estudou a fundo Ocultismo e suas obras foram bastante influenciadas por autores ocultistas como Helena Blavatsky e Emanuel Swedenborg .Tendo contato com as tradições esotéricas ela adotou o Símbolo da Coruja para representar a frase “Eu te amo” na linguagem de libras dos surdos e mudos, que é justamente o sinal que John Lennon faz no desenho da capa do álbum Yelow Submarine de 1969.
Em 1969 também havia uma banda Psicodélica chamada Coven( Exatamente o mesmo nome que se da a um grupo de Bruxos e Bruxas), na qual os integrantes estudavam ocultismo e nesta capa percebemos claramente a representação de um ritual com as Mudras ao fundo.
Blackie Lawless,(que nos anos 80 fundaria o W.A.S.P) nos anos 70 utilizava este Mudra em seus shows, influenciado por livros de ocultismo que ele também se interessava.
Muita gente do Rock curtia e curte essa onda de Ocultismo, tem tantas referencias em músicas, capas de álbuns, histórias legais que estou fazendo uma série de posts especiais sobre o tema, o primeiro voce pode ver
AQUI.
Uma curiosidade: A banda Coven fazia turnês com os Yardbirds, a primeira banda de Jimmy Page, que curtia ocultismo, pra ter uma idéia do quanto o cara curtia o negócio é só imaginar que ele simplesmente comprou o castelo de Aleister Crowley, um dos ocultistas mais fodas dos ultimos tempos
Mas foi em 1979 que o sinal do capeta virou marca entre os roqueiros. Ronnie James Dio que entrou na banda Black Sabath para substituir Ozzy Osbourne começou a utilizar este símbolo para interagir com o público e acreditem, ele aprendeu isso com sua avó.
Palavras de Dio:
“
Eu o usei tanto e tantas vezes que se tornou minha marca registrada, até que os fãs da Britney Spears quiseram fazer também... Então acho que com isso acabou perdendo o seu significado. Mas foi... eu estava no Sabbath nessa época. Era um símbolo que eu achava que refletia aquilo que a banda deveria representar. Mas NÃO é o símbolo do demônio como se estivéssemos aqui com ele. É um símbolo italiano que aprendi com minha avó e que se chamava "Malocchio". Serve para afastar o mau-olhado ou para fazer o mau-olhado, dependendo de como você o faz. Trata-se apenas de um símbolo mas tem encantos mágicos e atitudes e acho que funcionou bem com o Sabbath. Então fiquei bastante conhecido por isso e depois todos começaram a fazer a mesma coisa. Mas eu nunca diria que eu tenho crédito por ter sido o primeiro a fazer isso. Mas eu o usei tanto que acabou se tornando um tipo de símbolo do rock and roll”.

Então, depois desse entrevero todo, percebemos que de alguma forma as coisas acabaram se ligando. Eu não me canso de admirar algumas coisas antigas que mesmo depois de tantas mudanças nos hábitos e costumes sociais ainda permanecem entre nós até os dias de hoje.
Bom, então era isso! Espero que tenha conseguido passar a bola...
Até a próxima!